Trajetória da bala, cena montada e ferimentos no pescoço levaram polícia a apontar feminicídio na morte da soldado da PM em SP

  • 18/03/2026
(Foto: Reprodução)
Polícia pede prisão de Ten-Coronel pela morte da PM Gisele Alves Para indiciar o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, marido da policial militar Gisele Alves Santana, por feminicídio e fraude processual, a Polícia Civil apontou dois dos 24 laudos da Polícia Técnico-Científica elaborados após a morte como decisivos para afastar a hipótese de suicídio. O crime ocorreu há exato um mês, e foi registrado, inicialmente, como suicídio e depois passou a ser investigado como morte suspeita. O corpo da PM foi, então, exumado e passou por novos exames no dia 7 de março no Instituto Médico-Legal (IML) Central da capital, incluindo uma tomografia. Nesta terça-feira (17), foi solicitada à Justiça a decretação da prisão do policial, com aval do Ministério Público de São Paulo. A Corregedoria da PM também pediu a prisão. Até a última atualização desta reportagem, o Poder Judiciário ainda não havia se manifestado sobre o pedido. A defesa do tenente-coronel não se manifestou após o pedido de prisão e indiciamento. Segundo os peritos, as hipóteses construídas com os laudos apontaram que Gisele foi: imobilizada pelo pescoço sem apresentar defesa possivelmente desmaiou antes de ser baleada a cena do crime foi reconstruída, montada pelo tenente-coronel, com sangue em "lugares errados" e a posição dos pés não era compatível com a de um suicídio Isso foi possível a partir de laudos que mostraram: Trajetória da bala que atingiu a cabeça Profundidade dos ferimentos encontrados no pescoço A Polícia Civil concluiu que a profundidade dos ferimentos indicou a imobilização pelo pescoço, e que a trajetória da bala não seria compatível com suicídio. 'Qualquer hora me mata': PM que morreu com tiro na cabeça se queixou de ciúmes de tenente-coronel em mensagem Os documentos confirmaram ainda que Gisele não estava grávida e também não foi dopada, mas que havia mais manchas de sangue da soldado espalhadas por outros cômodos do apartamento onde ela morreu. O laudo necroscópico obtido com exclusividade pela TV Globo diz que as lesões eram "contundentes" e feitas "por meio de pressão digital e escoriação compatível com estigma ungueal" (arranhões que indicam marcas de unhas). Tenente-coronel marido de PM que morreu com tiro na cabeça já foi condenado por abuso de autoridade contra colega: 'Objetivo de atingir sua dignidade' A PM, de 32 anos, foi encontrada morta no apartamento onde morava com o marido, no Brás, região central de São Paulo, no dia 18 de fevereiro. Ele estava no local e foi quem acionou o socorro. LEIA TAMBÉM: VÍDEO mostra policiais indo limpar apartamento depois de morte Caso da PM morta em São Paulo. Fantástico Investigação Alguns pontos chamam a atenção dos investigadores sobre a morte. Um deles é o horário da morte. Uma vizinha do casal afirmou à polícia que acordou às 7h28 depois de ouvir um estampido único e forte vindo do apartamento. Isso aconteceu cerca de meia hora antes da primeira ligação feita pelo marido da vítima ao serviço de emergência. Na chamada para a PM, registrada às 7h57, ele disse que a esposa havia se matado. “Minha esposa é policial feminina. Ela se matou com um tiro na cabeça. Manda o resgate e uma viatura aqui agora, por favor”, afirmou Neto na ligação. Minutos depois, às 8h05, ele ligou para o Corpo de Bombeiros e disse que a mulher ainda estava respirando. As equipes chegaram ao local às 8h13. Posição da arma Outro questionamento é sobre o disparo. Um dos socorristas relatou que a arma parecia estar "bem encaixada" na mão da mulher, de uma forma que nunca havia visto em casos de suicídio. Por achar a cena incomum, decidiu fotografá-la. O profissional também afirmou que o sangue já estava coagulado quando a equipe chegou ao apartamento e que não havia cartucho de bala no local. Socorrista diz que desconfiou da forma em que arma estava encaixada na mão de PM encontrada baleada Reprodução/TV Globo Banho No mesmo inquérito da Polícia Civil, depoimentos de socorristas que atenderam a ocorrência levantam questionamentos sobre a versão apresentada pelo marido da vítima. Em depoimento, o oficial afirmou que estava no banho no momento em que ouviu o disparo, mas os primeiros bombeiros que chegaram ao local disseram que ele estava seco e que não havia marcas de água no chão do apartamento. O tenente-coronel disse que entrou no banheiro para tomar banho por volta das 7h e, cerca de um minuto depois, ouviu um barulho que pensou ser de uma porta batendo. Ao sair do banheiro, afirmou ter encontrado Gisele caída na sala. Um sargento do Corpo de Bombeiros com 15 anos de experiência relatou que, ao chegar ao apartamento, encontrou Geraldo de bermuda, sem camisa e inteiramente seco. O declarante afirma que não havia nenhum tipo de pegada molhada que indicasse que o tenente-coronel teria saído imediatamente durante o banho, inclusive ele estava seco Ele também afirmou que o chuveiro do banheiro do corredor estava ligado, mas não havia poças de água no chão ou no corredor. A observação foi reforçada por um tenente da PM cuja equipe foi a primeira a chegar ao local dos fatos. Ele apontou que nem Geraldo nem Gisele aparentavam estar molhados ou terem tomado banho antes do disparo. Conduta e falta de desespero Outro ponto que chamou a atenção da equipe de resgate foi o estado emocional do marido. O sargento do Corpo de Bombeiros afirmou que não viu nenhum tipo de desespero por parte do tenente-coronel nem o viu chorando. Um segundo bombeiro também estranhou a conduta do marido porque ele "falava calmamente" ao telefone, questionava a todo momento o atendimento prestado pelos bombeiros e insistia que a vítima fosse retirada com pressa e levada imediatamente ao hospital. Os socorristas também observaram que o oficial não apresentava nenhuma marca de sangue no corpo ou nas vestimentas, o que indicaria que ele não teria tentado prestar os primeiros socorros à esposa. Ligação para desembargador Entre os contatos feitos por Geraldo na manhã da ocorrência, um deles chamou a atenção da família da policial: a ligação para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). Ele chegou ao prédio às 9h07 e subiu para o apartamento com o tenente-coronel. O advogado da família, José Miguel da Silva Junior, questiona a presença do magistrado no local. “Ele vai ter que explicar por que estava lá. Pelo relato que temos, o desembargador foi a primeira pessoa acionada após o disparo.” 9h18: o desembargador reaparece no corredor. 9h29: Após 11 minutos, o tenente-coronel surge com outra roupa. Em nota, o Tribunal de Justiça, por meio de sua Diretoria de Comunicação, informou "que o desembargador foi chamado ao apartamento como amigo do tenente-coronel e que eventuais esclarecimentos serão prestados à polícia judiciária". "Fui chamado como amigo, após os fatos, pelo Cel., anunciando ocorrência do suicídio. Eventuais esclarecimentos, se necessários, serão dados à Polícia Judiciária", disse o desembargador. Entrada e saída de policiais do apartamento Uma câmera de segurança registrou a entrada e a saída de três policiais no apartamento onde Gisele morreu. Segundo uma testemunha, as agentes foram ao local cerca de 10 horas após a ocorrência para fazer a limpeza do imóvel. Ainda de acordo com a testemunha, as agentes chegaram ao prédio às 17h48 de 18 de fevereiro, o mesmo dia da morte, e entraram no local acompanhadas por uma funcionária do edifício. As imagens mostram que elas permaneceram por aproximadamente 50 minutos e não saíram com objetos. As policiais serão ouvidas na investigação.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/03/18/trajetoria-da-bala-cena-montada-e-ferimentos-no-pescoco-levaram-policia-a-apontar-feminicidio-na-morte-da-soldado-da-pm-em-sp.ghtml


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