Como cientistas ‘caçam’ vírus pelo mundo para antecipar pandemias
11/05/2026
(Foto: Reprodução) Imagem ilustrativa de vírus.
Universal Images Group/Getty Images
No coração da Amazônia, cientistas tentam responder a uma pergunta urgente: é possível identificar uma ameaça viral antes que ela provoque uma epidemia?
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A aposta da ciência está na metagenômica, técnica que permite sequenciar todo o material genético presente em uma amostra ambiental ou animal. Com ela, pesquisadores conseguem rastrear vírus já conhecidos e até identificar microrganismos ainda desconhecidos pela ciência.
A pesquisa é conduzida por cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ao longo da BR-319, rodovia que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO) e atravessa extensas áreas de floresta preservada.
Segundo José Luiz Proença Modena, professor associado da Unicamp e coordenador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes, a Amazônia concentra uma das maiores diversidades virais do planeta.
“Desde o início da vida, onde há organismos vivos, há vírus”, explica o pesquisador.
O problema surge quando o equilíbrio ambiental é rompido.
“O desmatamento e outras formas de perturbação ambiental rompem barreiras ecológicas naturais que tradicionalmente limitam o contato entre humanos e os vírus silvestres”, alerta Modena.
Esse cenário favorece o chamado spillover, processo em que vírus saltam de animais para humanos.
Segundo o pesquisador, os maiores riscos estão nos vírus que infectam aves e mamíferos e nos arbovírus, transmitidos por artrópodes, como mosquitos e carrapatos.
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A BR-319 como laboratório natural
BR-319
Foto: Reprodução/Rede Amazônica
A BR-319 se tornou um ponto estratégico para os estudos porque atravessa regiões com diferentes níveis de preservação ambiental e ocupação humana.
A estrada foi inaugurada em 1976, mas boa parte do trajeto permanece sem pavimentação. Ao longo dos anos, a abertura da via levou gado, atividades econômicas e novos assentamentos para áreas remotas da floresta.
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A equipe da Unicamp investiga comunidades isoladas ao longo da rodovia e compara esses dados com regiões do sul do Amazonas e norte de Rondônia, onde o desmatamento e o crescimento populacional avançam rapidamente.
“Nossas análises incluem amostras de roedores, que são potenciais reservatórios de vírus de alta virulência para humanos, como hantavírus e arenavírus, bem como diferentes espécies de insetos vetores”, explica Modena.
Além de vírus já conhecidos, como Oropouche (OROV), Mayaro (MAYV), dengue e chikungunya, os cientistas também buscam identificar novos agentes virais.
O alerta vindo do vírus
Mosquito maruim, conhecido como mosquito-pólvora, é o principal transmissor da febre Oropouche
Reprodução/Ministério da Saúde
Para os pesquisadores, a recente expansão da febre do Oropouche ajuda a entender como alterações ambientais podem favorecer novas epidemias.
Estudos filogeográficos indicam que a linhagem associada aos surtos recentes pode ter surgido após um evento de rearranjo genético ocorrido entre 2015 e 2016 em áreas degradadas do sul do Amazonas e norte de Rondônia.
“Acredita-se que o vírus tenha permanecido circulando em comunidades mais isoladas até alcançar centros urbanos maiores, como Humaitá e Manaus”, afirma Modena.
Depois disso, a disseminação ocorreu rapidamente para outras regiões do Brasil e da América Latina. Casos associados a viajantes também foram registrados em países da Europa e nos Estados Unidos.
Segundo o pesquisador, o caso demonstra como vírus antes restritos à floresta podem ganhar escala global.
A virada trazida pela metagenômica
Historicamente, a ciência costuma agir de forma reativa, estudando doenças depois que elas já causaram surtos.
Com o avanço das técnicas de sequenciamento genético e a redução dos custos dessas análises, a metagenômica passou a permitir uma vigilância mais ampla e preventiva.
Registro de uma transmissão colorizada de numerosas partículas do vírus HIV replicando-se a partir de uma célula T.
NIAID
A técnica consegue identificar o DNA e o RNA de diferentes vírus presentes em uma única amostra, mesmo sem saber previamente o que está sendo procurado.
Nos próximos passos do projeto, a equipe aplicará análises metagenômicas em amostras de roedores e mosquitos coletados em ambientes peridomiciliares, áreas de campo e trechos de floresta ao longo da BR-319.
“Acreditamos que essa abordagem integrada tem potencial para ampliar significativamente o conhecimento sobre a diversidade viral na região e, eventualmente, permitir a identificação de novos vírus”, avalia Modena.
Apesar disso, o pesquisador ressalta que ainda não há dados confirmando a descoberta de novos agentes com potencial de provocar surtos urbanos.
Ciência, floresta e qualidade de vida
Durante o trabalho de campo, os pesquisadores perceberam que a vigilância viral depende também das condições de vida das populações amazônicas.
“Condições adequadas de renda, acesso à educação e serviços de saúde são fundamentais para que essas comunidades possam atuar como verdadeiros guardiões da floresta e da saúde coletiva”, afirma Modena.
As equipes identificaram problemas recorrentes relacionados à água contaminada e à presença de roedores nas comunidades visitadas.
Por isso, o projeto passou a incluir ações de extensão, como distribuição de filtros de água e oficinas de controle de roedores.
Segundo os pesquisadores, integrar conservação ambiental, vigilância em saúde e desenvolvimento social pode ser essencial para reduzir o risco de futuras crises sanitárias originadas na floresta amazônica.
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